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Conviver: Um Convite Silencioso à Transformação
cultura

Conviver: Um Convite Silencioso à Transformação

Conviver e melhorar… ou apenas conviver?

Talvez essa seja uma das perguntas mais honestas da vida em comum.

Porque conviver não é difícil. Difícil é não se perder de si mesmo no encontro com o outro. Difícil é não endurecer, não se fechar, não transformar o cotidiano em um lugar onde cada um sustenta, com firmeza, a sua própria versão.

Sem perceber, vamos criando pequenas certezas: o outro não vê, não escuta, não corresponde. E essas certezas, repetidas em silêncio, começam a ocupar espaço demais. Aos poucos, deixamos de encontrar a pessoa — e passamos a lidar com a ideia que formamos dela.

E é aí que o vínculo pesa.

Porque já não há encontro, há confronto — às vezes silencioso, mas constante.

E o mais delicado: cada um se sente com razão. Cada um tem seus motivos. Cada um acredita, de algum modo, estar apenas reagindo. E assim, quase sem ruído, a convivência vai se tornando um lugar onde há muitos argumentos… e pouca escuta.

Talvez o engano esteja em imaginar que convivemos com pessoas prontas. Não convivemos. Convivemos com processos. E nós não estamos fora disso.

Estamos no mesmo barco.

Aprendendo, muitas vezes sem perceber.
Repetindo, até cansar de repetir.
Sentindo, até entender o que ainda não conseguimos nomear.

E, nesse caminho, surge uma tendência quase automática: medir o outro. Avaliar se ele merece nossa presença, nosso cuidado, nosso respeito.

Mas, se formos um pouco mais honestos, talvez reconheçamos: nenhum de nós atravessaria a própria história se fosse medido apenas pelo que acertou.

Todos, em algum momento, fomos alcançados por algo que não veio do nosso merecimento.

Fomos sustentados quando não sabíamos sustentar.
Compreendidos quando ainda não sabíamos compreender.
Acolhidos, mesmo quando não éramos fáceis de acolher.

E isso deveria nos dizer algo.

Não para negar o que incomoda. Não para apagar o que fere. Mas para não permitir que o olhar se torne definitivo. Porque, quando o olhar se fecha, a convivência deixa de ter espaço para acontecer.

Conviver não é concordar com tudo. Nem aceitar tudo.
Mas talvez seja não reduzir o outro a uma única versão.

Talvez seja também não se reduzir.

No fim, a convivência não revela apenas o outro. Revela muito de nós.

E, quem sabe, melhorar nesse processo não seja ajustar quem está ao lado…
mas reconhecer, com mais verdade, que todos estamos aprendendo — cada um ao seu tempo, mas dentro do mesmo caminho.

Paulo Azerêdo